TRIPTOFANO: SUPLEMENTAR OU NÃO?

By 3 de fevereiro de 2020 Nutrição com Evidência

Muita gente defende a suplementação isolada do aminoácido triptofano para diversas condições clínicas: obesidade, insônia, apetite… mas a condição mais indicada normalmente é depressão e transtornos do humor em geral. Mas afinal, tem fundamento? Devemos suplementar ou não?

É preciso, antes de tudo, compreender a via bioquímica do triptofano. O triptofano é um aminoácido presente em muitas fontes alimentares. Após adentrar o organismo, parte do triptofano recebe hidroxilas da enzima Triptofano-5-hidroxilase e se torna 5-Hidroxi-triptofano (essa forma, inclusive, se encontra à venda também como suplemento). Esse 5HTP será substrato da enzima 5-HTP-descarboxilase, se tornando serotonina.

Cabe um adendo para falar sobre a serotonina: ela é sem dúvida um neurotransmissor essencial, com funções diversas. Há evidências de que uma série de transtornos psiquiátricos, como a depressão maior, possam ser causados por baixa serotonina. Muitos antidepressivos agem inclusive como inibidores da receptação de serotonina, aumentando o pool de serotonina disponível no cérebro.

A serotonina, então, pode sofrer ainda outras reações de enzimas transferases para no final se tornar melatonina. Melatonina é também uma molécula muito importante, principalmente por sua ação no controle do ciclo circadiano. A ela é creditada, por exemplo, a sinalização necessária para a cascata de reações que geram o sono e o repouso.

Entendida a bioquímica do triptofano, resta a dúvida: qual o objetivo do paciente? Serotonina ou Melatonina? Sabemos que Melatonina, por exemplo, possui picos de síntese a partir do início da noite, então o horário que você suplementa pode favorecer um dos dois. Sem falar que Folato, B12, B6, Zinco, Magnésio são cofatores essenciais na transformação de triptofano, então é preciso garantir o aporte dietético.

Outro fator: a grande maioria da serotonina do organismo é produzida no intestino. Como anda a saúde e a integridade intestinal do paciente? Será que não é necessário realizar modulação intestinal e ajustar a dieta antes de pensar em suplementar triptofano?

Por fim, quero deixar um alerta: como disse antes, muitos pacientes utilizam fármacos inibidores da receptação de serotonina. É absolutamente desaconselhável suplementar nesses pacientes, pois pode haver uma disponibilização muito aumentada de serotonina que pode causar uma condição grave chamada Síndrome Serotoninérgica.

Sendo assim, minha mensagem é a mesma de sempre: domine a bioquímica e a fisiologia do nutriente ou composto bioativo em questão. Leia, estude e aprenda com as evidências científicas. Suplemente com senso crítico. Faça um diagnóstico nutricional preciso para determinar a suplementação. Não negligencie a interações fármaco-nutriente!

Referências:

Trends Pharmacol Sci. 2016 Nov; 37(11): 933–944

Pharmacol Ther. 2006 Mar;109(3):325-38

Hum Psychopharmacol. 2013 May;28(3):270-3

J Psychopharmacol. 2008 Jun;22(4):426-33

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